Para quem até pouco tempo temia nunca conseguir assistir a um show de Milton Nascimento, vê-lo duas vezes em menos de dois anos é quase excentricidade! Meu caso. Aproveito para dizer que a sorte me sorriu com todos os dentes. Meu début de Milton foi em Ouro Preto, ao ar livre, bem acompanhado, numa noite de céu claro e lua em plena praça Tiradentes. A ocasião era o Festival Tudo é Jazz e Milton era o homenageado da edição 2008. Show completo e, como convidados, nomes da estatura de Wayne Shorter e Ron Carter. Para um aficcionado por jazz, uma situação só acessível em sonhos! Não era.
Adiante. Na segunda vez, nem precisei sair de Aracaju para ver deus. Ele veio a mim, e num domingo, dia santo. Obrigado, MN. Tá certo que a conta bancária se divertiu menos.
Milton abriu com Paula e Bebeto, tema gravado em 1975, letra de Caetano e um hit cujo estribilho inclui a transcendental afirmação “qualquer maneira de amor vale a pena”. Dali até o final, apenas lendas de nossa música popular. Quantos compositores poderiam cobrir mais de trinta anos com sucessos? Obviamente, dezenas de temas tão bons ficaram de fora do setlist.
Pela segunda vez, percebi que Milton não é de muito papo em cena. E quando fala, parece que é sempre meio improvisado. Como alguém sem costume de falar em público. Isso me dá a impressão de uma naturalidade que costuma faltar a artistas de longa estrada, cuja tendência a frases e piadas prontas é sempre um atalho mais simples. No final das contas, a simpatia contida acaba vencendo e Milton lembra um menino simpaticão, gingando um pouco, atento com os músicos, concentrado em si mesmo, embora sem discursos.
Para fechar, confesso que até meus vinte e muitos anos o que conhecia da música de Milton Nascimento se limitava ao senso comum miltiano: Coração de Estudante, Canção da América e Maria, Maria. Em parte por influência de um amigo, Estevão Malfussi, comecei a explorar Milton com o disco Angelus (1993). Ali se iniciava um corpo a corpo com a densidade de sua obra que dura até hoje.
Ouço sistematicamente Courage, Clube da Esquina 1, Clube da Esquina 2, Minas, Gerais, Caçador de Mim, Milagre dos Peixes… e é como varrer as camadas da terra com uma vassourinha, ao estilo de um arqueólogo, indo sempre mais fundo na beleza e na dureza, num sofrimento quase doce, numa melancolia muito própria. Qualquer tema na interpretação de Milton ganha notas de dramaticidade e alguma melancolia. Mesmo em temas, em princípio, mais para cima, como Cravo e Canela, por exemplo. O timbre, a modulação, o uso do falsete (sua assinatura), algum não sei o quê que mexe lá no fundo. Melhor nem tentar explicar.
Continua em breve.
Ernesto Seidl é produtor e apresentador do Clube do Jazz, Aperipê FM


agosto 19, 2010 às 1:10 am |
Ernesto, parabéns pelo trabalho incrível que você faz…cada texto melhor do que o outro…e só matéria-prima de qualidade…tudo de muito bom gosto!
Nem sempre posso ouvir o programa, mas sempre venho dar uma olhada por aqui pra vê se tem posts novos, principalmente após um show inesquecível como esse…só pude agradecer a Deus a oportunidade que tive…nem tenho palavras para descrever! Milton é um mestre!!
agosto 21, 2010 às 2:07 am |
Amigão:
Vi somente hoje, sexta-feira, dia 20/08, teu e-mail convidando para assistir ao programa. Infelizmente, mesmo que tivesse visto na quarta, não teria conseguido assistir, pois tinha um compromisso inadiável…..ver meu INTER sagrar-se BI CAMPEÃO DA AMÉRICA.
Abraços…qualquer hora falamos novamente.
setembro 9, 2010 às 8:01 pm |
Parabéns pelo excelente blog.
Vou adicioná-lo aos meus links.
Grande abraço, JL.