Ferraro Trio: música feita a mão

31 jul

A música que faz mover também pode comover? Me deparei com a questão há não muito tempo e sinceramente acho que ela dá pano pra manga. Pensando mais no concreto: a música abertamente dançante, com batida marcada, de pista, extrovertida, fanfarrona e pra cima teria menor poder – se é que tem algum – de nos tocar, mexer também com o interno, fazer viajar, em suma, despertar sentimentos? Ou seria essa, então, uma virtude exclusiva ou prioritária do som dito sério, intimista, suave e contido? Bom, cada um que pense agora com sua própria alma e esqueleto e dê sua resposta, que será a certa. Adianto meu ponto dizendo que acredito, antes de qualquer coisa, na força de comoção da Música, sem adjetivos. Resolvo a questão por aí, no geral mesmo.

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Mas este texto é sobre o sergipano Ferraro Trio, matéria-prima para a reflexão sugerida acima. Alerto que eles tratam de fazer música que bebe com sede em ritmos que movem. Além de vasta amizade, a corrente de 220 volts que passa entre Saulinho Ferreira, Rafael Jr. e Robson Souza se conecta a uma tomada rítmica forte. Vamos chamar de groove, o que se aplica a bases variadas como funk, rock, samba, soul. É música instrumental e muito intensa, pra valer. Tirando o caso de alguma baladinha, o pezinho em geral não se aguenta, a cabeça dispara e a mão também. Ouça por exemplo Ponta dos Mangues, Capitão Cook, Hamster, Pega o Doido e Retrobyte e tire suas dúvidas. Duvido que não viaje longe e se emocione. Se não der nada, procure ajuda urgente!

Mas a trinca também enfrenta temas de Simonal, James Brown, Hendrix, Jorge Benjor, Stevie Wonder e Michael Jackson. Ficou mais claro agora em que águas navegam, né? No entanto, enquadrar os Ferraro apenas aí seria impreciso, uma vez que transitam por outros territórios individual e coletivamente, com especial atenção ao Jazz. Acredito que tanto a sensibilidade que possuem quanto as soluções técnicas e harmônicas que mobilizam no trio tenham sido potencializadas pela forma jazzística de encarar e de tratar a música. O que obviamente não exclui toda uma riqueza de backgrounds que trazem, mas é colocada para funcionar em outras lógicas. Fique bem claro que não estamos falando aqui apenas de improvisação, solos e virtuosismo. Isso está no Ferraro, mas bem mais discretamente – às vezes num detalhezinho – do que costuma ser o caso em power trios, formação que com frequência cede ao narcisismo, a solos mirabolantes que buscam aplausos e gritos. No Ferraro – vai lá um chavão – menos é mais e a economia tem dado certo. E não jogam pra torcida, como se diz no futebol.

Para quem não sabe, na música a formação em trio é altamente perigosa, exigente e, muitas vezes, ingrata. Explico. Havendo apenas três cabras, a garantia dos elementos fundamentais da música – ritmo, melodia e harmonia – pesa toneladas e margem para erros não há. Quando um escorrega, cai todo mundo. E verdade seja dita, para bateria e contrabaixo a navalha é ainda mais afiada, que me perdoem os guitarristas. Mencionei ingratidão porque nem sempre ouvidos menos treinados dão valor ao trabalho-chave e aparentemente menos exuberante de bateristas e contrabaixistas. Ocorre que no Ferraro, Robson e Rafa aliam seriedade e competência técnica e garantem uma cozinha não apenas firme, limpa e segura, mas também muito suingada, temperada e saborosa. Agora sim, o guitarrista. Em primeiro lugar, Saulinho soma. Joga pro time reforçando a base, mas sem retranca. Sua força monstruosa está na polivalência. Parece que tem mais de duas mãos e consegue unir e reunir todos os elementos da música com muita sensibilidade. Realça, dessa forma, o poder do trio e facilita para que dê seu devido sotaque a cada tema que executa. Bem, o virtuosismo de Saulito na guitarra não passará despercebido, podem acreditar.

É preciso ainda registrar a evolução do Ferraro nos cerca de seis anos de trabalho. Ao lado do crescimento técnico, a bagagem geral também fermentou junto, auxiliada pela atuação em outros formatos e sobretudo pela inquietação de todos e de cada um. A gravação de dois EPs e de um DVD, a exposição em palcos maiores ou menores pelo Brasil (Belo Horizonte, Fortaleza, Juazeiro do Norte, Sousa), o corpo-a-corpo com aulas, ensaios e pesquisas acadêmicas reconhecidas são parte dessa estradinha que o trio está abrindo ao mesmo tempo em que nela caminha. E parecem, como diz um uruguaio, amar la trama más que al desenlace!

NA ESTRADA COM FERRARO TRIO

Está claro e evidente que o Ferraro Trio ajudou decisivamente a colocar o patamar da música feita em Sergipe em outro nível. Ao mesmo tempo, tem servido de exemplo para músicos em formação (suas apresentações estão sempre lotadas de jovens que aspiram e tragam cada nota). E mais, tem prestado o ótimo serviço de mostrar para muita gente que há salvação e esperança na música atual. É para isso que nesse momento o trio está captando recursos para preparar um álbum e colocar mais adubo no jardim que vem plantando com a ajuda da produtora Dani Dutra. Em breve, mais música feita a mão, com cuidado artesanal.

Tudo isso com grande autenticidade e natural discrição. Discrição que revela alto respeito pelo ofício, compromisso com a arte e com as próprias convicções de Robson, Saulinho e Rafa, todos eles professores envolvidos até o último fio de cabelo com ética e estética na música (e na vida, eu diria, por conhecê-los como pessoas). E revela também bastante daquilo que são os três amigos. Gente muito gente, que se apresenta com enorme gosto, sinceridade e simpatia. Basta assisti-los em ação, ver os sorrisos de retribuição que soltam. E aquela simplicidade que cativa demais, como se convidassem cada um do público para um café com cuscuz depois do show.

* Texto publicado na Revista Cumbuca (n. 10, dez./2015).

Ernesto Seidl produziu e apresentou o programa Clube do Jazz da Aperipê FM de 2006 a 2013. É cientista político e vive em Florianópolis/SC.

Mais sobre Ferraro Trio neste blog:

FERRARO, OU A ARTE DO TRIO: MOSAICO DE SONS & IMAGENS

 

FESTA DE 7 ANOS DO CLUBE DO JAZZ: A VIDA É SONHO

18 set

Um é pouco, dois é melhor… sete é bom demais! E a coisa só melhora, diria eu, o que mostra que a idade também sabe trazer vantagens. Está evidente que no caso do Clube do Jazz o tempo tem sido aliado. A família cresce e se diversifica, o programa se solidifica e amadurece, nosso universo se expande. Tudo vitaminado! E pra quem duvida, a prova provada disso, a cobra + o pau mostrados, são nossas festas de aniversário.

Em parceria renovada com o CJ, Tio Maneco abriu terreno para uma noitada de arrepiar os ouvidos. O público captou desde cedo o que testemunharia e encheu a casa, aplaudiu cada tema e saiu sorridente – já meio alto do chão. Mas também com alguma parte de sua fé restaurada na possibilidade de encontros assim, que permitem reunir arte, descontração, prazeres bem mundanos e, sobretudo, estar cara a cara com gente de carne e osso, muito real, com emoções reais, respiração e fora do smartphone. Para mim, este ponto sempre foi e será o mais importante. Um programa de Jazz e nossas festas como espaço para encontro e troca.

A noite também tinha perfume especial com o début público do novo comandante do Clube do Jazz desde fevereiro, o fabuloso André Teixeira, certamente um dos mais robustos entusiastas da vida cultural em Sergipe. Batizado, juramentado e sacramentado!

Sim, claro, o Quarteto do Clube do Jazz. Tem alegria nas pernas e nos braços, é nossa força motriz, a locomotiva, o carro-chefe, nosso leitmotiv! Lembrei de mais um: nossa vedete! Enfim, os meninos dos olhos da noitada. Com sua estrada já longa e muitas celebrações nas costas, o Quarteto não se mixaria por pouco. E por isso mesmo, se excedeu! Repertório exuberante, ousadias e riscos que pouca gente se propõe a sair de casa para fazer frente a um público de centenas. Como no Jazz se faz malabarismo sem rede de proteção, aceitar esses desafios é sempre motivo de orgulho. Além de temas para todos os gostos e fetiches, o Quarteto soltou composições de próprio punho, a saber, Nuala e Clube do Jazz, do líder e lenda Alejandro Habib, e Song for Friends, Don Alejandro e Mr. Seidl, de Saulinho Ferreira. Nosso baterista e relações públicas Rafael Jr., junto com Fabio Cavalieri no baixo acústico, mostrou por que no Jazz a sessão rítmica vale ouro, assim como todo time campeão começa por uma bela dupla de zaga.

Mas não ficamos por aí, pois saias e vestidos também subiriam ao palco em diferentes turnos, dando voz e ainda mais cores à noite. A começar pelo branco abre-alas levado por Lina Sousa (Água de Beber e Só Danço Samba), cuja biografia musical renderia uma porção de artigos. E então tivemos certeza de que Samba & Jazz vieram mesmo para ficar. Tanto que mais adiante Monara (Ladeira da Preguiça e Sambou, Sambou) manteve a trilha, com ganho em decibéis. Algumas milhas e doses à frente, Vanessa Góes continuaria no Samba (Upa Neguinho), depois cedendo ao standard (I’ve Got You Under My Skin) e, finalmente, chutando o pau da barraca e o ninho de pássaro com um Rythm & Blues anos 2000 (Rehab). Juro que vi pessoas pedirem uísque duplo nessa ocasião! Mas não acabou. O retorno do Samba Jazz – quase um Rambo da música – ainda renderia batidas de pezinho (Nanã) na voz enrouquecida de Soayan, que encontrou gás e coragem para enfrentar um tour de force de Nina Simone (I Put a Spell on You). Agora já eram garrafas de scotch que desembarcavam nas mesas. Me perdoem, mas nessas horas não há dia seguinte…

E teve a hora do bolo; e que bolo, deus do céu! E novamente um parabéns a você em ritmo de Jazz. Assim entramos pela madrugada. Uma dose de nostalgia já me assalta, ainda mais porque dessa vez escrevo esta pequena crônica de longe.

La vida es sueño. E juntos temos sonhado com o Clube do Jazz há mais de 7 anos. Naquela noite, tenho certeza, ardemos.

Muito obrigado, grande abraço e até breve.

Ernesto Seidl

Algumas fotos em: https://www.facebook.com/programaclubedojazz/photos/pb.695480233835584.-2207520000.1411063493./787700407946899/?type=1&theater

Clube do Jazz no Facebook: https://www.facebook.com/programaclubedojazz?fref=ts

Arte do Cartaz: Senhor Pablo Carranza

FESTA DE 6 ANOS DO CLUBE DO JAZZ: A FORÇA DA MÚSICA

7 ago

Tom Zé repete o tempo todo que elogio em boca própria é vitupério. Concordo tanto com a ideia que acabei incorporando-a a minha coleção pessoal de frases feitas. Mesmo assim, peço aqui tolerância para comentar um momento muito especial compartilhado no último sábado, 03 de agosto, correndo alto risco de repetição. Digo isso porque acabo de espiar o texto deste mesmo blog sobre a Festa de 5º Aniversário do Clube do Jazz, em abril de 2012. Vi que muitos elementos agora reunidos no Tio Maneco também estavam lá atrás, no Capitão Cook, até então a casa de nossas celebrações.

Mas a história nunca se repete e a noite do 6º Aniversário provou que, sob alguns aspectos, a idade é vantajosa. E o primeiro item que salta aos ouvidos é o nível atingido pela música produzida sob a batuta do Quarteto Clube do Jazz, que tem envelhecido com todas as vantagens que apenas os inteligentes sabem extrair das experiências. Bem, dane-se! Não resisto e transcrevo aqui o que disse há cerca de um ano. Isso sim, se repetiu em escala ainda maior quando o CJ apagou 6 velinhas (literalmente, sobre um bolo de chocolate) no Maneco: [os músicos] “protagonizaram um espetáculo que impressionou até espectadores calejados ou habitués de clubes de Jazz ao redor do mundo. Para os menos acostumados, então, serviu como uma revelação: ‘e isso é possível e eu nem sabia?’”

Acho que aqui valeu esse Ctrl Alt C + Ctrl Alt V!

E voilà! Já que toda tradição é inventada, pelo menos a nossa é caseira, muito alegre, e ninguém tasca. É fato que nossas festas têm conseguido juntar os ingredientes mais essenciais do espírito jazzístico: liberdade, criatividade, espontaneidade e curiosidade. E isso só existe onde há espíritos abertos ao contato. Claro que um pouco de lubrificante social – leia-se, algum tipo de álcool – facilita a tarefa. Mas não a resolve. Tem que ter Rafael Jr., Robson Souza, Alejandro Habib e Saulinho Ferreira + seus Convidados Impossíveis.

E aí entra talvez o ponto mais fascinante do Jazz ao vivo, que só é totalmente completo quando construído na interação com o público, num fenômeno de polinização cruzada: a música do palco fertiliza a platéia, que em retorno energiza o palco, e assim por diante. O resultado final? Quem foi, sabe.

Da enfezada abertura com Manteca, tema super Latin Jazz de Gilespie, até o segundo bis, I Shot the Sheriff (sim, Bob Marley suingando), o que se viu foi um constante crescendo de energia, apuração e leveza. Do lado do palco e do público, bem entendido. (Me perdoem, mas não falarei aqui sobre dancinhas, gingados e outras coreografias mais subjetivas). Sete temas apresentados são de autoria de Alejandro Habib ou de Saulinho Ferreira, a saber, Tila, Con Polenta e Manifesto Blues, do lendário saxofonista; e O Surto, Toca 67, Song for Friends e Mr. Seidl, do prodigioso guitarrista. “Mr. Seidl”? É, o coração ainda está forte! Deve ser pela qualidade das amizades…

Para não mudar muito o esquema tradicional, em pequenas ou grandes doses foi subindo ao palco o timaço de convidados. Padrão FIFA! Estou falando do maestro Moisés Trombone, do trompetista Gentil, do tenorista Davysson Lima, do gaitista Julinho Rego e, se não bastassem esses craques, um trio de cantoras de elevadíssima octanagem sobrevoou o ninho do cuco e levou febre à cena: Soayan Silveira, Vanessa Góes e Monara. Só podia explodir mesmo. Vi fortes indícios de arrebatamento estético entre o público: pestanas sem se fechar por minutos e apnéias involuntárias. Ah, a força da Música!

Vou terminando em notas de agradecimento a todos os presentes que deram luz especial a nossa noite e a todos nossos parceiros e apoiadores que encaram projetos como esse como questão fundamental. Num momento de muitas manifestações pelo país afora, a nossa teve uma trilha sonora dos sonhos.

Obrigado e até breve.

Ernesto Seidl é produtor e apresentador do Clube do Jazz da Aperipê FM.

 

Cartaz CJ 6 anos (baixa)

Uma Noite com Pat Metheny: Música para Sonhar Acordado

18 jun

Namoro a música de Pat Metheny há mais de 15 anos e poder assisti-lo em carne e osso no Dia dos Namorados é prêmio. A noite foi em Salvador, num Teatro Castro Alves abarrotado e de som impecável. Já havia passado longa Imagemnoitada com o guitarrista em 2002, em show da mega-celebrada turnê Speaking of Now. Aquele continua sendo o mais impressionante espetáculo jazzístico que já vi. O segundo foi em Salvador, semana passada.

A tradicional cabeleira ainda está lá – mas uma tintura castanha escondeu a grisalheira de quem está às portas dos 60 -, ornamentando um dos cérebros mais geniais da música contemporânea. Como guitarrista, Pat tem sido o músico mais influente das últimas três décadas. Isso nem se discute. E os 20 Grammys e outros montes de prêmios que lhe deram eu menciono apenas de lambuja! Como logo adiante neste Blog temos texto qualificado do guitarrista e compositor Saulo Ferreira, com quem fui louvar Pat e sua patota, ficarei apenas em alguns elementos gerais.

O primeiro elemento que merece sempre lembrança é o papel central de Metheny na oxigenação do Jazz num período de baixa criatividade e forte predomínio de uma música pop algo duvidosa em termos estéticos entre o final dos anos 1970 e toda década de 1980. Ele acabou de fato antecipando o que seria a virada do Jazz, conhecida com a geração norte-americana chamada de Jovens Leões (Young Lions), Wynton Marsalis à frente da turma. Pat rodava em faixa própria com o pianista Lyle Mays ao fazer um som diferente que unia inicialmente Jazz, folk e rock. Um som intenso, mas tranquilo. Sempre bom para viajar na estrada e nas ideias. Mas quem viajou rápido mesmo foi sua própria música, desbravando fronteiras de todos os lados possíveis e ganhando contornos complexos.

Após um período no Rio de Janeiro, incorporou elementos da música brasileira com aberta e sabida influência do mineiro Toninho Horta. Note-se que o tema mais famoso de Pat, oferecido como bis em Salvador, é justamente uma bossa – Are You Going With Me? Por outro lado, Manoel, o Audaz, de Toninho, aparece claramente como inspiração em outro clássico, Last Train Home. Ainda mencionaria Insensatez, de Tom Jobim, música presente em quase todos seus shows, e colaboração marcante em trabalhos importantes de Milton Nascimento. Mas para além do Brasil, Pat estendeu as orelhas também para a Argentina, Índia, norte e centro da Europa, Espanha e África, sem deixar de cavar sempre mais fundo no solo fértil de sua pátria.

Isso significou levar muito longe a ideia de fusão cultural na música, o famoso crossover. E está evidente na volumosa obra de Pat Metheny a crença de que se a Música é universal, tudo pode ser incorporado. É claro que por algum tempo críticas pairaram sobre aquela cabeleira de roqueiro, com acusações de pasteurização e excesso de elementos pop. O homem calou todo mundo em pouco tempo. De quebra, atraiu uma gama enorme de novos ouvidos para o mundo do Jazz e da música instrumental, recolocou o gênero nas rádios e passou a se apresentar para públicos fidelíssimos e muito grandes, feito que praticamente mais nenhum jazzista era então capaz de fazer, à exceção do já enferrujado mito Miles Davis, falecido em 1991.

Metheny armou com Lyle Mays (anotem bem esse nome) provavelmente a dupla mais fiel e interessante do Jazz desde Duke Ellington e Billy Strayhorn. Isto daria assunto para tratados. Ao lado do também cabeludo, magro e alto Lyle, verdadeiro monstro em melodias, capaz de solos com doses astronômicas de lirismo e admirador assumido de Tom Jobim, fez diversas configurações, com destaque ao Pat Metheny Group (PMG), quase sempre incorporando um membro-chave de fora dos Estados Unidos. E de onde vinha o primeiro a ser encaixado? Bingo! Naná Vasconcelos integra o sensacional álbum As Falls Wichita, So Falls Wichita Falls (1981), colocando em temas cada vez mais ricos e sugestivos o que seria uma marca do trabalho de Metheny, os vocais. Para ilustrar esse tipo de registro, vou sugerir apenas quatro temas de quatro álbuns que merecem ser escutados assim que possível, tanto em áudio normal quanto em vídeos do Youtube: First Circle, Minuano (Six/Eight), Follow Me e You.

Voltando a Salvador. Pat não estava no Brasil com o PMG. Mas trouxe uma trinca de arrebentar e com a qual girou o mundo na turnê do álbum Pat Metheny Unity Band, encerrada justamente na capital baiana. Trata-se de um timaço formado pelo baterista mais desejado de sua geração, António Sanchez, pelo saxofonista top de linha (mais flauta e clarone) Chris Potter e pelo contrabaixista Ben Williams, rapaziada pelo menos 20 anos mais nova do que o líder. Estava tudo lá. Aquele som que te embarca e faz sonhar.

Sem comentários sobre o show. Como já falei demais, convido a todos para apreciar o belo texto de Saulinho Ferreira aqui adiante.

PS: Oba, consegui escrever um texto sobre Pat Metheny sem usar a palavra virtuoso!!! Putz…

Ernesto Seidl é produtor e apresentador do Programa Clube do Jazz, da Aperipê FM, Aracaju.

Transfusão de Sangue Via Ondas Sonoras: Pat Metheny Unity Band

18 jun

Era um dia comum, daqueles em que várias coisas boas passam a um palmo do nosso nariz e deixamos que elas simplesmente passem. Um amigo gentilmente emprestou-me um DVD e, sem expor mais detalhes, afirmou que eu precisaria assisti-lo o quanto antes. Ansioso para saber do que se tratava, mal entrei em casa e logo fui tratar de descobrir o porquê de tamanha recomendação. Em suma, tratava-se de um show do disco Speaking of Now (2002), do guitarrista e compositor Pat Metheny. O trabalho contou com a participação dos inacreditáveis Steve Rodby (contrabaixo acústico e elétrico), Cuong Vu (trompete, violão, percussão e vocais), Richard Bona (violão, percussão, contrabaixo elétrico e vocais), António Sanchez (bateria), além de Lyle Mays (piano, teclados, violão e guitarra), parceiro de Metheny há mais de 30 anos.

Lembro muito bem de minha reação ao me deparar com tanta genialidade. Naquele show do Pat Metheny Group, vi um mix de complexidade harmônica, melodias inteligentes e de cautelosa variação de dinâmicas. Apesar de já conviver com música, foi como partir da estaca zero! Percebi então que eu precisaria de uma guitarra acústica para ser ainda mais feliz.

No último dia 12 de junho, a capital baiana sediou o show do guitarrista de Jazz mais influente dos últimos trinta anos. Lá estavam o Sr. Metheny, que no auge de seus 58 anos tocou guitarra com a mesma energia de um garoto. O Teatro Castro Alves parecia pequeno para comportar tantos apreciadores, inclusive, vindos de outras cidades. Colecionador de composições que vão do Jazz a temas para balé, Metheny sempre esteve aberto a múltiplas influências. Notamos nitidamente o uso da sensibilidade como fio condutor de seus trabalhos, independente da frente na qual atue. A mais recente delas é o Pat Metheny Unity Band, em que conta com o contrabaixo acústico de Ben Williams, com o saxofone de Chris Potter e com a bateria de António Sanchez. Para a felicidade dos soteropolitanos, a Bahia estava na lista dos Estados brasileiras que receberiam Metheny e sua banda repleta de unidade musical.   

 O público presenciou quatro shows paralelos. Metheny e seus parceiros soavam como um contraponto a quatro vozes, no qual cada voz tem sua independência, mas são coerentes entre si e se encontram em algum momento. Foi assim! Em alguns momentos ouvíamos quatro músicas distintas tocadas simultaneamente. Entretanto, lá estavam todos juntos atacando o tempo forte como se um caos polirrítmico não tivesse acontecido compassos antes. Tudo executado com muita precisão, tranquilidade e muita, muita energia. Energia que contagiou todos os que aplaudiam ao fim de cada improviso e esperavam ansiosos pelos próximos diálogos musicais.

 Ao executar James, do disco Offramp (1982), após a exposição do tema pelo grupo, Pat improvisou contanto apenas com o acompanhamento rítmico ultra-espacial de Sanchez, deixando a base harmônica por conta da memória dos ouvintes. Loucura? Julgo que não. Prefiro refletir sobre a possibilidade de narrar uma mesma história de várias formas, aumentando, rodeando, criando climas… O combustível do Jazz é a surpresa, sobretudo para quem toca. Tudo soa diferente a cada execução; na verdade, tem que soar! Se tivéssemos um bis deste tema, certamente a história seria outra.

Entre as performances com a banda completa, Pat executou temas em duos, valorizando cada membro da Unity. Foram interpretações belíssimas e em alguns momentos inacreditáveis. Foi o caso de Go get it, um tema dotado de melodia complexa, daquelas que a gente só acredita que de fato é algo escrito quando ouvimos a repetição após os improvisos. Apoiado pela condução firme das colcheias pontuadas de Ben Williams, Metheny tocou Insensatez, de Tom Jobim. Brincou com o tempo, com a intensidade e com nossa imaginação.

Pat tocou guitarra acústica, violão de nylon, guitarra synth – uma das principais marcas de seu trabalho – e nos encantou com o som mágico da guitarra Pikasso, um instrumento exótico composto por 42 cordas com o qual o músico abriu o show. Não contente, comandou robôs musicais que emitiam sons próprios de acordo com a vibração das cordas de sua guitarra. Por trás de toda a parafernália estava sua identidade, resultante de uma linguagem musical contagiante, madura e inconfundível. Genial!  

De volta para casa, a sensação de um novo sangue circulando em minhas veias. Um novo modo de compreender a música, com novas e sadias ambições, com o imenso desejo de continuar produzindo e me comunicando com as pessoas através dela. Após uma exibição dessas, quantos músicos foram correndo ao encontro de seus instrumentos? Me resta a curiosidade em saber quem teria sido o segundo a fazê-lo!

 Saulo Ferreira é compositor e guitarrista.

Iª NOITE DO JAZZ FUSION: SOBROU ENERGIA!

3 out

Sinceramente, não esperava menos do que outra noite histórica da música sergipana, puxada pelo Jazz. É claro que eu estava certo, mas o nível da coisa foi além dessa expectativa. O padrão artístico promovido pelo Quarteto Clube do Jazz na noite diluviana do dia 29 de setembro mostrou o que pode acontecer quando músicos talentosos colocam o coração a serviço do Bem. O público entendeu tudo de imediato e correspondeu com aquela atenção cúmplice que, me perdoem o possível exagero, só tenho visto nas festas do Clube do Jazz. Mérito de todo mundo, portanto.

Em vez de palavras, preferiria postar aqui um ou mais vídeos com temas apresentados pelo Quarteto Clube do Jazz. Por exemplo, Con Polenta, obra inspirada do saxofonista Alejandro Habib que encarnou à perfeição o espírito da noite, botando numa tigela e batendo juntos baião, funk e salsa. Repito: baião, funk e salsa! Mas é claro que o cardápio servido foi muito além dessa polenta, com direito a temas de alta riqueza, muitas vezes exigentes tecnicamente. Após quase três anos de vida e tocando semanalmente, o Quarteto tem enfrentado desafios constantemente e não se mixa. Vence sempre. O saxofonista tenor Davysson Lima foi o convidado-estrela da noite e trouxe muito colorido ao resto do time, com fluência e força em seu vocabulário musical.

Tenho certeza de que celebrar o Jazz Fusion, corrente por longo tempo vítima de preconceito no Jazz em virtude de sua suposta impureza, foi mais do que acertada. Tivemos a oportunidade de colocar todas as experiências individuais acumuladas pelos músicos, não importa o horizonte, a serviço da criatividade que apenas a linguagem jazzística permite. Um exemplo disso é a versão irresistível do clássico do rock pesado Smoke on the Water em pegada Latin Jazz, guardando a originalidade dos riffs de guitarra com toda uma cozinha requebrante e um sax barítono detonando tudo. Em síntese, misturas curiosas e com o astral lá para cima.

Como sempre, nossas festas do Clube do Jazz são uma parceria entre músicos, produção, Capitão Cook, colaboradores abnegados e, sublinho, um público ultrafiel e entusiasta. Público, aliás, que imediatamente, após qualquer noitada, pergunta sobre a próxima. Não sei ainda quando, mas haverá outras, palavra de escoteiro!

Quero destacar que nesse evento, pela primeira vez, tivemos apoio financeiro de uma empresa privada – a Escurial Revestimentos Cerâmicos. Esta ajuda permitiu a produção de uma noite histórica e somos muito gratos aos apoiadores da Escurial, que valorizam o que temos realizado e estimulam um protagonismo cultural que acreditamos seja uma das melhores formas de garantir nossa salvação em termos de vida musical.

Gostaria de registrar um agradecimento muito especial aos grandes responsáveis pela beleza e energia que nos embalaram no sábado madrugada adentro: Robson Souza, Rafael Jr., Saulinho Ferreira e Alejandro Habib. Esse é o Quarteto Clube do Jazz.

Muito obrigado a todos que estiveram conosco de alguma forma ou de outra e que têm colaborado na construção de alguma coisa saudável e que orgulha, acredito eu, a todos.

Ernesto Seidl, produtor e apresentador do Clube do Jazz.

O QUE É QUE O RECÔNCAVO TEM?

28 ago

Para quem já perdia as esperanças com a música na Bahia, uma notícia animadora: há sinais claros de vida inteligente na região. A primeira edição do Recôncavo Jazz Festival, de 23 a 25 de agosto, em Cachoeira, matou a cobra e mostrou o Jazz. Cachoeira? Sim, a meras duas horas de Salvador, em direção ao centro do estado e às margens do rio Paraguaçu. Tudo perto, tudo fácil, e a música oferecida em praça pública, sem frescura.

Um detalhe: o Festival foi 100% gratuito, bancado pelo governo estadual. Alô, Sergipe! Já que se despeja tanto dinheiro público em axés e reboladas, nada mais justo.

Só a primeira noite já teria justificado tudo. A celebrada Orkestra Rumpilezz, 200% Bahia, se apresentou com o saxofonista norteamericano Joshua Redman, vedete do evento. É preciso agradecer ao maestro Letieres Leite, líder da Rumpilezz, pelos arranjos que fez para três temas do saxofonista (Mantra #5, Jazz Crimes e Hide and Seek), expoente de sua geração (nasceu em 1969). Sinceramente, depois dessa preferiria nunca mais assistir a Joshua sem a Rumpilezz nas costas. A criatividade rítmica, de timbres e arranjos calcados no candomblé promovida pela orquestra acrescentou toneladas de beleza e complexidade ao Jazz de tradição mais puro-sangue do americano. Esse casamento ou reencontro entre duas vertentes da diáspora africana foi uma maravilha. E confesso que uma das coisas mais intensas e originais que já vi. Típico show que poderia ter umas 5 horas de duração.

Mas ainda tínhamos duas noites – uma maniçoba e um mocofato! – pela frente. Na sexta e sábado, novas doses de Jazz made in Bahia com o Saravá Jazz Sexteto. Prova adicional de vigor da música produzida naquele estado, reforçada pelas apresentações dos trios Retro_visor e Mondicá na noite seguinte. À parte o Retro_visor, com uma linguagem mais informada pelo rock e experimentalismos, os demais mostraram fusões bem elaboradas com base no rico balaio de ritmos e melodias de raiz brasileira, como os ijexás, o congado e as muitas variações de samba. Destaco que o baterista do Mondicá Trio, Márcio Dhiniz, já viveu em Aracaju e, poucos anos atrás, animou uma boa noitada de Samba Jazz promovida pelo Clube do Jazz no Capitão Cook.

Mas além da Bahia, presença dominante, Minas Gerais mandou representantes de cacife. Novamente prevaleceu a matriz africana, com o veterano baterista (e ogã!) Neném, versadíssimo no candomblé. Na sexta, Neném atacou de quarteto, com o flautista Mauro Rodrigues, o tecladista Sérgio Aluotto e o contrabaixista Kiko Mitre. No dia seguinte, veio em sexteto com os percussionistas Ricardo Cheib e Guto Padovani, formando o Suíte para os Orixás. O nome diz tudo.

Agora que me dei conta de que estávamos num festival de música no Recôncavo e de que tudo estava muito amarrado com coerência àquelas raízes culturais.

Ernesto Seidl é produtor e apresentador do Clube do Jazz.

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