Do Estribo ao Jazz – por L. F. Veríssimo

7 set

Pequenos detalhes

Marshall McLuhan (lembra dele?) tinha uma tese sobre a importância do estribo na história do mundo. A invenção do estribo dera, por assim dizer, acesso ao cavalo à aristocracia e inaugurara uma porção de coisas – além, claro, da cavalaria. Era um exemplo do pequeno detalhe que muda tudo, no caso o transporte humano e a maneira de se fazer guerra. Sem o estribo não existiriam nem Napoleão nem Don Quixote nem estátuas equestres, e de nada adiantaria ao Ricardo III de Shakespeare implorar por um cavalo, pois só um cavalo não o salvaria. Implicitamente, o que ele gritava era “Meu reino por um cavalo – com estribo!”.

Pula daí para o mundo do jazz. Não me peça explicações, o texto é meu e eu pulo para onde quiser. Até hoje se credita a gente como Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Bud Powell e Thelonious Monk a invenção do be-bop no fim da década de 40. Mas o que deu, literalmente, impulso à nova maneira de se fazer jazz foi uma revolução na levada da bateria inventada por Kenny Clarke. Um pouco por autopreservação – seria impossível acompanhar o ritmo vertiginoso de algumas das composições do bop com o quatro por quatro tradicional marcado no bumbo – Clarke mudou a marcação para o címbalo, providenciado uma base mais arejada, variada e propulsiva para o grupo. Todos os bateristas do be-bop seguiram a inovação de Clarke. Sem ele o bop não se criaria, ou não seria o que foi. Outro exemplo do pequeno detalhe que muda tudo. Clarke integrou a formação original do Quarteto de Jazz Moderno, mas saiu cedo. Emigrou para a França, onde morreu em 1985.

De certa maneira, a batida de violão do João Gilberto naquele disco da Elizete Cardoso corresponde à nova levada do Clarke. Também foi um detalhe que causou uma revolução. A bossa nova tem muitos antecedentes e muitos pais, mas é, antes de mais nada, filha de uma batida, a do samba depurado do João Gilberto. A base era uma só, e, como a do Kenny Clarke, mudou tudo. E nenhum dos dois sabia que estava inventando o estribo.

Extraído de Zero Hora, 07/09/2009

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