CJ entrevista Victor Biglione: Jazz, Bossa Nova, Rock e um mundo próprio

20 dez

Aracaju, 04/12/2009

CJ – Grande prazer em conversar contigo.

VB- Prazer em estar em Sergipe e é muito bom saber que tem um programa de Jazz, que é uma das coisas que eu mais amo na vida. É uma linguagem universal, pela qual sempre me interessei; sei falar esta linguagem. É maravilhoso. Você encontra com qualquer pessoa no mundo e não precisa trocar uma palavra, é inacreditável.

CJ- Victor, para começar a nossa conversa, gostaria de perguntar um pouco sobre a dinâmica do Circular BR, teu encontro com Marcel Powell. Olhando um pouco a biografia, a carreira de vocês, tu nasceste no final dos anos 50, cresceste nos anos 60, é uma geração. O Marcel é dos anos 80, um garotão; um encontro muito curioso. Como é que está funcionando?

VB- São duas gerações do violão. A gente fez amizade, eu produzi o último disco dele e é muito bom porque é uma troca de influências. Meu estilo de tocar não tem absolutamente nada a ver com o estilo do Marcel; o do Marcel não tem nada a ver comigo, são duas linguagens diferentes. Ele é mais da escola de tradição do pai, do samba, do choro. Eu sou mais da bossa, do jazz. Quando eu abordo a música brasileira é sempre via Bossa Nova, por causa da minha identificação com aquelas harmonias, com aquilo tudo. Então, ele gosta disso, o público gosta porque um não bate com o outro, ficam coisas totalmente diferentes.

CJ – E eu percebo – bom, conheço muito mais a tua carreira do que a do Marcel, que é muito jovem ainda, está desabrochando -, que tu tens uma marca muito grande que é justamente isso: os ouvidos muito abertos a várias influências; tem o Django presente na tua guitarra, a Bossa Nova, o Blues, o Folk e, obviamente, o Jazz, com muitas improvisações, uma capacidade de improvisação muito grande. Queria que tu comentasses sobre tua formação.

VB- Eu sempre fui criado em Copacabana. Quando saí da Argentina e vim para o Brasil, fiquei um pouquinho em São Paulo, acabei chegando em Copacabana e peguei aquela influência cosmopolita. Minha família é de músicos. Sou descendente de ucranianos. O meu primo, Claudio, foi um grande baterista, meu primo-irmão. Então eu recebi música desde garoto. Ele gravou Wave, de Tom Jobim, gravou com Sinatra no segundo disco do Tom. Um batera sensacional, gravou com Donato, agora recentemente; faleceu muito jovem. Então, lá em casa isso chegava tudo, chegava tudo ali. Minha mãe gostava dos Beatles, aquela coisa da contracultura, dos anos 60, do classic-rock, da Swinging London. Os anos 60 foram muito bonitos, muito utópicos. Acho que foi a última década em que a utopia existiu. E, então o que chegava em casa: muita música clássica, por causa da turma russa, Prokofiev, Tchaikovsky. Desde garoto ouvia Tchaikovsky, essa onda toda direto, música brasileira, Bossa Nova direto e Rock do bom, o verdadeiro. Então, esta foi a minha formação. Dentro desses estilos eu transito com tranquilidade. Eu adoro pegar essa parceria com o Andy Summers; acabamos tocando música brasileira pra caramba. São dois CDs que eu tenho com ele. É muito gostoso você fazer o cara tocar música brasileira; ele tocou, chorou, gravamos Um abraço no Bonfá, ele chorou na minha frente. Depois fizemos um só de Brasil, que é o nosso disco chamado Splendid Brazil. Ele tocou Edu Lobo, ele não conhecia, tocou Casa Forte. E foi uma descoberta enorme pra ele, ele ficou amarradão. Fiz uma grande amizade e realmente eu gosto disso tudo; eu não tenho nenhum ufanismo, entendeu? Não é só o Choro e a Bossa Nova é proibido porque usou um pouco da harmonia do jazz. Que é isso?

CJ – Falando em Jazz, como é a tua entrada, teu lance com o Jazz?

VB- O Jazz é o estilo, o Jazz é a formação da minha vida. Meu estilo de vida não é de jazzista, é mais de roqueiro. No dia-a-dia, eu sou mais como os roqueiros. Os jazzistas são muito sérios, sofridos: “Oh! eu faço o negócio…”. Eu não tenho essa onda, mas a minha formação é de Jazz. O material que eu tenho em casa, uma discografia praticamente completa… Através do Wagner Tiso, gravei com Lee Konitz, John Pattitucci, Stanley Jordan. Eu fiz com Stanley durante anos o que o Armandinho está fazendo agora. Tocar com o Lee Konitz foi uma surpresa impressionante, poder gravar com um dos caras que fundou o Cool junto com Miles; toquei com Paulinho da Costa, Eumir Deodato, Sérgio Mendes, trabalhei com essa turma toda. Acabei de lançar um disco agora do Tom chamado Uma guitarra no Tom, só tocando Tom Jobim, mostrando que você não precisa cantar o Tom Jobim. Eu peguei o Tom Jobim e fiz uma releitura absolutamente com ritmos brasileiros, bossanovística, mas totalmente recheada de Jazz. Então foi uma experiência muito boa, a chegada deste disco na imprensa foi excelente, me deu muita alegria. Acabei de lançar também um tributo a Ella Fitzgerald, com a Jane Duboc. Nós pegamos e botamos em bossa-jazz, em xaxado, também em bossa nova.

 CJ – Esta ousadia tua é uma característica do músico brasileiro, me parece; sobretudo dos instrumentistas que bebem no Jazz, pegam e reharmonizam completamente.

VB- Ah é! Eu fiquei trancado em casa, esta é a vantagem de ter o material que eu tenho em casa. A Jane falou: “Victor, Here’s that train”. Eu falei: “beleza!”. Eu tenho em casa, graças a Deus, dez versões de Here’s that train. Com a Ella, Dee Dee Bridgewaters, com não sei quem mais, com Coltrane, quem você quiser. Das dez eu tirei a minha. É muito gostoso ter esse material de pesquisa. Antes de fazer um arranjo eu pego várias interpretações, várias influências e vejo pra onde é que eu vou. Isso é muito legal.

CJ – Victor, só para terminar a entrevista. Há pouco tu mencionaste que nos anos 60 havia um verdadeiro rock, o fim das utopias, digamos assim. Como é que estás vendo a música hoje. É uma pergunta que eu fiz pouco tempo atrás ao Zé Nogueira e ao Guinga. E aí? E o pessoal que está vindo, o Marcel é uma geração nova.

VB- Lógico, mas o Marcel é um caso à parte. Desses filhos de grandes nomes, ele e o Felipe, o irmão dele, são os que eu respeito mais. São músicos mesmo, o pai jogou pesado, não teve moleza. Mas é uma época em que… ainda bem que a gente tem, como dizia o Jimi Hendrix: “I have my own world to live through”; a gente pode criar nosso mundo. O mundo acabou. Porque se fosse depender do que está na mídia… desse aparelho chamado televisão, que é a pior coisa que o ser humano já inventou… Se fosse depender das informações que me são dadas e se eu não tivesse tido uma família que me ensinasse desde pequeno a correr atrás do que eu gosto, a procurar o que realmente me dá felicidade, me dá prazer, que é basicamente a cultura – nunca fiz música por dinheiro, dinheiro é para sobreviver -, então não sei o que seria da minha vida. Quem não tem isso hoje em dia corre o risco de apenas se entreter.

CJ – Para terminar em alto astral, uma dica para os músicos daqui. Em Aracaju, em Sergipe, há muitos músicos surgindo; uma dica tua para eles.

VB – O que eu falo para os músicos é o seguinte: eu realmente, de Xuxa a Roberto Carlos à Maria Betânia, gravei com todo mundo na MPB. Eu só tenho digo para se ter um pouco de cuidado com o negócio de vídeo-aula. Porque é muito melhor não olhar para a mão do cara, é melhor você escutar; escutou uma coisa, tira; porque você vai tirar do teu jeito. A partir do momento em que você vai tirar do seu jeito, você vai trabalhar a tua personalidade de músico. Eu tenho a impressão que essas vídeo-aulas deixam os músicos tudo parecido, tiram a personalidade do músico. É isso e estudar muito, estudar realmente, estudar mesmo, estudar harmonia. Os americanos têm milhões de defeitos, mas eles pegaram o que Charlie Parker fez e colocaram no papel. Perguntaram até para o Wayne Shorter o que ele achava do Obama e o Shorter falou que é a segunda chance que os americanos têm de ficar frente à frente com um cara que realmente é bem-intencionado; porque a primeira foi com Charlie Parker, e o povo americano não aproveitou esse gênio. Então, os americanos pegaram tudo o que o Parker fez e conseguiram colocar no papel, e eles conseguem ensinar isso, vão estudar direitinho, os acordes, as escalas, vão estudar a música, a divisão, tudo pra depois você… E outra dica que eu dou é não ficar preso, não ficar falando muito em equipamentos, sabe? Em vez de falar nome de pedal, vai ver uma exposição, ver um filme, ler um livro, ler biografias; porque a cultura geral é que vai dar marca a sua personalidade, vai lhe dar na hora de você deixar o recado; porque é fácil você ser músico, mas na hora em que você faz um disco você tem que ter o que dizer. Muita gente pensa tanto em aparelho, em marca de guitarra, que não tem o que dizer. Qual o seu recado, o que você quer dizer?

 Entrevista concedida a Ernesto Seidl, produtor e apresentador do Clube do Jazz

Uma resposta to “CJ entrevista Victor Biglione: Jazz, Bossa Nova, Rock e um mundo próprio”

  1. eliézer de campos guilherme outubro 12, 2011 às 4:26 pm #

    meu… Ainda bem q temos músicos como Victor… a cada entrevista dele vejo realmente q é um verdadeiro artista. A arte não tem fronteiras. Ser um escritor, um músico, um pintor… não tem diferença… é arte!!!

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