CJ entrevista Marcel Powell: uma grande herança e muitos desafios

17 jan

CJ – É uma grande satisfação te conhecer pessoalmente e poder conversar contigo. Gostaria de pedir, de início, para tu falares da dinâmica do Projeto Circular BR. Estás encontrando com uma fera da guitarra, uma fera do violão, da música instrumental, que é o Victor Biglione, alguns muitos anos mais velho do que tu; dois talentos de estilos diferentes. Como é que está funcionando isso aí?

MP – Olha, isso aí começou, na realidade, há mais ou menos uns quatro anos, num show que eu ia fazer com o meu irmão, que é pianista, um tremendo pianista, que mora fora do Brasil. Philippe Baden Powell. Como meu irmão, na época, não pôde tocar, o Victor foi a pessoa que o produtor chamou para substituir meu irmão, e ele já era um amigo do meu irmão. E foi um encontro maravilhoso, porque logo que a gente sentou para ensaiar a gente já viu um casamento muito feliz entre um violão de náilon e um violão de aço (ver matéria “Marcel Powell & Victor Biglione: o Náilon (en)contra o Aço” mais abaixo, no Blog) e que não brigam! Uma coisa incrível, de não brigar. Isso depende muito do instrumentista, claro. E o Victor, na minha opinião, considero ele um dos maiores que nós temos, não só aqui no Brasil, mas também no mundo, eu acredito. Tem um disco dele que me impressiona muito, que é um disco ao vivo no Festival de Jazz de Montreux, na Suíça. E ele já tinha me dado este disco uma vez e tal, e um dia eu resolvi parar para ouvi – porque eu sou muito assim, eu pego, fico recebendo discos, e um dia eu paro para ouvir; não necessariamente no dia seguinte em que eu recebo, mas sei lá, pode durar um mês, um ano depois. E o caso desse disco foi isso; e quando eu ouvi, eu ouvi coisas que realmente a gente pode colocar na galeria dos grandes aí. E ele é um cara que me ensina. Claro que eu tive aula com meu pai, de música e tal, todo o meu aprendizado foi… mas a vida profissional continua. Então, ele é uma das pessoas por quem eu sou influenciado, aprendo música com o Victor. Então, hoje a gente está podendo dividir, quer dizer, desde quatro anos atrás, desde o primeiro momento que eu fui vendo, tomando conhecimento e vi quem é o Victor. Poxa! A contribuição musical que ele teve na música brasileira. Ele é o artista estrangeiro com maior contribuição. É um cara com uma alma brasileiríssima. Então, poder fazer este projeto, como tantos outros dos que já fizemos e dos tantos outros que nós faremos, com certeza está sendo uma coisa maravilhosa. E este itinerante, passando por Aracaju. Me lembro que estive aqui em Aracaju várias vezes com meu pai quando era pequeno. Me lembro de duas produtoras daqui, Mel e Solange, que faziam coisas com meu pai, não só aqui em Aracaju, mas em outros lugares; mas eu me lembro que eu estive aqui com o meu pai, logo no início, assim, quando estava aprendendo música, violão, com meu pai. Ele já era aquele professor que colocava a gente, assim, em casa, ensina e já coloca no palco para ver se aquilo que foi ensinado em casa funciona. Então, estar voltando aqui depois de tantos anos (deixe eu ver, estou com 27, isso deve ter sido em 92; bota aí uns 15 anos, eu já estou podendo falar 15 anos atrás, estou ficando mais velho, né?). E eu estou lançando aqui o meu trio; eu fiz um disco de trio que é o meu quinto disco: Corda com bala. Então, é o Sandro (bateria) que está comigo hoje e o André Neiva (baixo), que é um tremendo craque. E estou justamente com o meu trio convidando o Victor, que foi a pessoa que produziu o meu disco e fez um trabalho fantástico.

CJ – Tu me deste uma abertura aqui: Samba e Jazz. Vamos falar um pouquinho disso aí. Tu tens um sangue tremendamente Samba, não?

 MP – É, eu sou muito brasileiro, isso já vem do papai, é claro. Quando eu nasci, já nasci com isso em mim; mas eu escuto um pouco de tudo, sou muito fã, por exemplo, do Michel Petrucciani. Tem uns três caras que eu curto, que é o Michel, o Oscar Peterson e o Gonzalo Rubalcaba. Mas eu vou te falar que ainda não sei quem eu coloco em primeiro.

CJ – O lirismo do Michel Petrucciani é impressionante, né?

 MP – É, impressionante, mas o Peterson tem um virtuosismo cavalo; mas eu acho que o Michel é o cara que mais me agrada e eu ouço, ouço, ouço e vira e mexe… porque, bom, o Rubalcaba é fenomenal, mas o Michel tem uma coisa… e outros caras de quem eu gosto, por exemplo: Arturo Sandoval, Paquito D’Rivera.

CJ – Tá pintando um caribe, um Jazz Caribe aí…

MP – Pô! Eu adoro Cuba, isso que eles fazem é maravilhoso, eu sou muito fã desses caras.

 CJ – Eu te vi agora na passagem de som, aliás, a ti e ao Victor, com algumas músicas uptempo, rapidíssimo, com ataques jazzísticos…

MP – É, a gente tem um pouco dessas influências, inevitavelmente. Isso, isso é uma coisa do papai também, né?

CJ – Que tocava Samba em velocidade de bebop.

MP – É, isso aí é uma coisa que a gente logo percebeu, porque as vezes calha. Não sei nem sei te dizer de qual encontro musical possa ter vindo isso mas, às vezes, um tem uma concepção e o outro tem outra; que é um pouco o caso meu e do meu irmão; apesar do meu irmão ser um cara que gosta de tocar coisas rápidas, com improviso e caráter virtuosístico. Mas às vezes, calha um pouco dele ir pro lado do Jazz; e eu sou mais brazuca. E com o Victor, não; a gente já logo percebeu que a gente gosta dessa coisa bem virtuosística e está tirando proveito disso. Mas claro que isso não pode ficar chato.

CJ – Bom, conheço teu trabalho há menos tempo do que conheço o do teu pai. Eu me impressiono tanto com as músicas lentas quanto com as rápidas dele. Ele tinha uma profundidade nas baladas; gosto muito daquele Solitude on Guitar, de 73, gravado na Alemanha, eu toco muito no Clube do Jazz. A Introdução aos Poemas dos Olhos da Amada, por exemplo. E depois cai em alguns sambas, principalmente ao vivo, em que ele tocava muito rápido e com uma destreza impressionante.

MP – Em todos os discos do meu pai; e você pode perceber isso até num grau mais elevado ainda do que neste disco aí. Tem um disco dele ao vivo no Olympia, em Paris. Esse foi um dos discos, acho que tem uns três, quatro, cinco discos em que ele realmente falou: “eu vou chutar o pau da barraca e vou fazer um negócio que ninguém vai fazer. Eu vou morrer e acabou”. Tem o do Olympia, de 74, ao vivo; você pode achar na internet. Baden com quarteto. Tem outro, gravado aqui no Brasil, lá no Rio, no Teatro Santa Rosa, lançado pela Biscoito Fino. Você pode achar facilmente porque teve uma distribuição muito boa: Baden ao vivo no Teatro Santa Rosa. Também é uma quebradeira dessas. Eu tenho explorado muito ultimamente.

 CJ – Vocês falavam sobre isso, falavam sobre música?

 MP – Não, não. Engraçado. Claro, ele me ensinou, mas é engraçado que o papai, ele fez a coisa certa, ele escreveu certo por linhas tortas; porque quando eu resolvi aprender música e tal, eu ficava, já desde os nove anos de idade, só ouvindo o meu pai. Antes de eu começar a tocar violão. Aliás, minto, depois que eu comecei a tocar violão, eu ficava ouvindo o meu pai tocar, horas e horas, discos e gravações, e sempre as coisas muito virtuosísticas, tipo Samba Triste. Tem o ao vivo dele lá em São Paulo, um negócio fantástico, se chama Ao vivo no Teatro Procópio Ferreira, lá em São Paulo, que tem um negócio, tem um berimbau de tirar o fôlego; e esse lado dele ele nunca me passou. Engraçado, quer dizer, ele nunca sentou assim e disse: “olha, você faz assim, improvisa, velocidade”. Ele me ensinou violão. Mas eu acho que ele fez a coisa certa, porque ele queria que eu descobrisse isso por meu próprio meio, e foi fatalmente o que aconteceu; porque quando ele me ensinava violão, ele me ensinava as coisas, tipo assim, ele me ensinava, por exemplo, ele fez um choro pra mim chamado Atravessado, que é uma coisa assim (Marcel toca a música no violão). Ele ensinava essas coisas assim, do início. Você tem que começar assim, não pode querer dar o pulo do gato, né? Ele me ensinava muita coisa, por exemplo, ele fez outro prelúdio pra mim que era um exercício que acabou virando música, que é assim (Marcel toca a música no violão). Eram coisas que viravam melodias; isso era uma coisa bem pra você estudar, pra você aprender o instrumento. Agora, a coisa da batida de Samba, improviso, essas coisas, eu ia ouvindo, eu ficava ávido por aquilo, ficava querendo aquilo, eu ouvia e falava: “pai, estou querendo aprender umas coisas mais…”. Porque às vezes você senta numas rodas, você vai numa reunião de amigos e tal, aí as pessoas estão querendo ouvir um negócio mais pancada; e você chega com uma coisa meio…

CJ – Intimista.

 MP – É. E não vai funcionar tanto, e tem que ter um público mais seleto, tem que ter seu papai do lado. As pessoas querem que ele toque primeiro. E o filho dele está ali tocando, então, eu sentia meio falta de uma música que funcionasse para qualquer ambiente, que era mais ou menos isso, entendeu? E eu meio que ficava, também… isso eu tenho até hoje, de uma certa maneira, eu não vou negar, você tem uma certa coisa de querer impressionar um pouco. Isso no bom sentido. Uma coisa de você querer se mostrar um pouco; normal, eu acho normal e tal. E aí, quando eu ouvia o papai eu falava: “Pô, o papai me ensina essas coisas, mas na hora de gravar, na hora de fazer o show, ele descasseta tudo, né? Pô, eu também tô querendo”. Mas o mais legal é que eu fui descobrindo tudo isso, claro que eu pedi, eu falei: “Pô, pai, me ensina o Samba Triste”. Aí ele me ensinou o Samba Triste, o beabá; mas o resto, claro, ele foi me passando mais, só que fui eu mesmo procurar nas partituras, aí eu fui descobrindo só. Ele nunca sentou para me ensinar a batida de Samba. Ele me ensinava violão, técnicas, escalas, essas coisas. Ele nunca falou isso, mas acho que ele queria que eu descobrisse isso por meu próprio meio, porque senão ficaria muita cópia demais. “Você vai fazer assim, vai improvisar assado”, aí fica uma coisa, assim, você é um robô.

 CJ – Justamente. Eu queria comentar o seguinte. Teu pai criou uma assinatura musical. É um dos músicos que mais me impressiona, que mais facilmente identifico quando o ouço.

MP – Eu desde cedo percebi isso.

CJ – Pois é. E como é que tu estás achando a tua assinatura, como é que estás treinando ela?

MP – Olha, tenho buscado isso e acho que tenho conseguido aos pouquinhos; e eu acho que os maiores músicos que têm as maiores assinaturas são os caras que ouvem de tudo, de uma certa maneira. Então, por exemplo, de Brasil, no que diz respeito ao Brasil, tem um cara que eu acho que tem uma assinatura fantástica e eu acho um gênio. Eu estive com ele aqui e ele esteve aqui tocando com Stanley Jordan: é o nosso Armandinho. O Armandinho é simplesmente gênio! Acabou, ponto! Eu acho que depois de Jacob do Bandolim, todos os bandolinistas que surgiram depois, com todo respeito que eu tenho ao próprio Déo (Rian) e tudo mais… mas na minha opinião, o Armandinho é o cara que falou assim: “Depois do Jacob, sou eu, e ponto!”. E o mais interessante é que ele conseguiu isso; ele tem composições, mas ele não conseguiu isso necessariamente compondo, ele conseguiu isso interpretando. Tem um disco dele chamado Retocando o Choro, que é da Biscoito Fino. Este disco eu ganhei em 2003, mais ou menos. Nesse disco ele realmente dá uma outra cara para o choro. Ele toca as mesmas coisas que você ouve nas rodas de choro, que está calejado de ouvir, e isso é que uma coisa impressionante; porque ele se supera. Porque você tocar uma coisa, você vai gravar Águas de Março, você vai fazer “é pau, é pedra…” como todo mundo. Tudo bem, é legal, mas você vai ficar num lugar comum. Agora, você pega uma Noites Cariocas, por exemplo, que é um choro que, meu amigo, em cada dez músicas brasileiras, uma é essa que é tocada a cada minuto, de Jacob do Bandolim. O cara pega e faz uma outra coisa que você fala: “Espera aí! É Noites Cariocas, mas é uma outra coisa, é uma coisa nova”. Então, eu acho que o Armandinho tem isso. Com todo aquela pinta de roqueiro dele e tal, mas ele tem uma alma que é brasileira, inegavelmente. Tudo bem que ele bota aquela faixa, aquela munhequeira, mas o cara é brasileiro, bicho; e no bandolim, na minha opinião, é o cara – em termos de tudo: técnica, tudo que você possa imaginar. E a assinatura está lá: Armandinho. Depois dele, aí vem Hamilton de Holanda, esses caras que são influenciados. O próprio Hamilton fala isso. Você tem aquele Danilo Brito, que é um craque (fiz um show com ele em São Paulo), que foi o último vencedor do prêmio VISA. E tem outros aí. Mas o Armandinho é o primeiro que encabeça depois da era Jacob. Depois de Jacob e Lupércio Miranda vem Armandinho. Depois vêm os outros, que são da safra do Armandinho. Isso é fato, na minha opinião.

CJ – Para fechar, o que tu dirias ao jovem músico. Em Sergipe há muitos jovens músicos instrumentistas. O pessoal do Jazz, do Rock, do Blues, da MPB. Qual a dica que darias?

 MP – Fazer as coisas com amor, com dedicação. Fazer não colocando – claro que a gente quer ser reconhecido -, mas não coloque isso como foco principal; coloque isso como foco, sim. Porque também não ter foco, não ser reconhecido, também é uma certa passividade com o fracasso. Nunca vou aconselhar isso a alguém. Mas sempre querendo fazer as coisas bem feitas, entendeu? Enfim, fazer as coisas com amor, dedicação e bola pra frente! Pô, isso não é só na música, não, é em qualquer coisa na vida!

Entrevista concedida em Aracaju, em 04/12/2009, a Ernesto Seidl, produtor e apresentador do Clube do Jazz.

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