FERRARO, OU A ARTE DO TRIO: MOSAICO DE SONS & IMAGENS

21 jul

Como se sabe, o cinema nasceu mudo, porém logo encontrou na música aliado perfeito para fortalecer a dinâmica e a profundidade da narrativa das imagens. A trilha era sempre executada ao vivo. Obviamente, exigia dos músicos maestria para garantir algo difícil: sincronia. Como também se sabe, os anos 30 aposentaram os músicos do cinema mudo e abriram portas aos compositores de trilhas gravadas para filmes falados.

Teatro Lourival Batista, Aracaju, 16 de julho de 2010. Ferraro Trio inverte o expediente e usa imagens para colorir sua música. Voltava, assim, aos anos 80, saudando a genial invenção do Videoclipe que tem marcado gerações desde então. Na ocasião, aliás, o grupo lançava DVD gravado em apresentação ao vivo.

De cabo a rabo, o show entrelaçou a lógica do tocado com a do projetado em telão ao lado do palco. Gerava, assim, uma terceira narrativa. E de modo inteligente, criativo, cômico. O VJ (vídeo jóquei) também foi um ás. Percebeu-se logo tratar-se de um show no sentido cheio da palavra. Performance, produção, ensaio, suor, preparação. Naquela noite, Ferraro Trio & Equipe levantavam o padrão da produção musical em Sergipe. Isso não é pouco.

Fosse apenas isso, já seria ótimo. Mas a qualidade da música impressionou. Vamos do início: o trio é a formação completa mais básica na música, não importando o gênero (clássico, jazz, rock). Nele, tem-se os três elementos fundamentais que garantem ritmo/condução, melodia e harmonia. Numa situação em que cada instrumento é obrigado a garantir sua função, o grau de dependência entre eles é máximo. E altos são os riscos de erro. Bateria e baixo, diga-se de passagem, simplesmente não têm direito a equívocos, pois não há rede de segurança para esse tipo de equilibristas. Então a palavra é essa: equilíbrio.

Tratando-se de um Trio com pé fincado explicitamente no groove do funk (e não de um clássico Power Trio de rock), tudo levaria a crer que o terceiro elemento, a guitarra, estaria muito mais centrado ditando a melodia, claro, colorindo a condução com acordes e, eventualmente, cravando alguns solos, tudo em benefício daquela famosa levada que faz todos baterem o pé. Sim e não! É aí que a coisa fica mais complicada, e justamente mais bonita.

Saulo Ferreira ditava a melodia, com frequência em uníssono com o baixo 5 strings de Robson Souza. Também com frequência, adicionava força à levada, buscando intensidade na combinação integrada do trio, puxada pela bateria de Rafael Jr. – um homem responsável. Mas Saulo não acrescentava apenas algumas cores. Era um arco-íris inteiro. Nos solos, mas não apenas, o domínio da linguagem jazzística brotava no uso de quiálteras e na polirritmia discreta, no abuso de acordes e notas dissonantes, elementos raríssimos em um Trio funk/rock. Os solos do grupo, no entanto, foram sempre concisos e obedeceram à economia do Ferraro, cuja maturidade já não sente falta das demonstrações de virtuosismo banal. A economia com precisão é a virtude.

A criatividade diversificada na escolha dos músicos convidados, chamados alternadamente para compor um mosaico na recriação de formas da Black Music, de James Brown a Black Rio e Benjor, com escalas em Stevie Wonder com direito a voz e, pasmem, Beatles, mereceria páginas à parte.

Portanto, há novidade cultural inteligente na cidade. E para os que duvidam, isso também é Sergipanidade.

Ernesto Seidl é produtor e apresentador do Programa Clube do Jazz da rádio Aperipê FM, 104,9 (Aracaju/SE).

3 Respostas to “FERRARO, OU A ARTE DO TRIO: MOSAICO DE SONS & IMAGENS”

  1. Rafael Jr. julho 22, 2010 às 4:29 pm #

    Thanks, Prof Ernesto!
    Muito bom o artigo, e vai ser publicado por aí…
    Abração e muito jazz!

  2. Igor Brasil julho 26, 2010 às 9:15 pm #

    Primeiramente queria parabenizar a vc Ernesto, que tem feito um trabalho maravilhoso na divulgação da música instrumental em sergipe!!!!! Que o Clube de Jazz continue por muitos e muitos anos. E queria parabenizar também o Ferraro trio, que realizou um evento muito bacana e está fazendo um som animal!!!!! Fiquei muito orgulhoso de poder participar deste espetáculo.
    abraços

  3. Rafael Jr. julho 28, 2010 às 10:23 pm #

    Foi um prazer tê-lo no palco.
    Vamo trazer o Clube de Bolso pra cá, mermão!

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