NA ESTRADA COM FERRARO TRIO

4 jun

Três dias, dois shows, 1.800 km, quatro estados atravessados. Seriam boas palavras-chave para resumir a experiência no mini-tour com Ferraro Trio & Equipe pelo VI Festival BNB de Música Instrumental, no final de maio. Mas seria injusto não acrescentar: muita descontração, camaradagem e música em estados sólido, líquido e gasoso. Pat Metheny, Nico Assunção, Kiko Freitas e Jaco Pastorius praticamente viajavam conosco!

Dois destinos anotados na agenda: Juazeiro do Norte, sul do Ceará, e Sousa, extremo oeste paraibano. Ambos no semi-árido. Juazeiro do Norte, tudo bem. Padre Cícero na veia, mil documentários e matérias a respeito. Agora… Você disse Sousa? Sim, é isso mesmo. Missão dada ao Ferraro é missão cumprida.

Primeira estação, Garanhuns. Ao saber que chegávamos a Garanhuns, nos Alpes pernambucanos, nosso guitarrista gritou “chocolate quente”, provavelmente sem sequer acordar. Mas às seis da matina o Sertão exige mais respeito: cuscuz, macaxeira, inhame, carne do sol acebolada frita light e café com leite. O jovem garçom se chamava John Lennon e aparece no retrato.

Enfim Juazeiro, cidade de 250 mil habitantes, região de alta densidade cultural. Particularmente densa na música, muito ligada ao folclore. Dados do Estado informam haver 72 grupos de cultura popular registrados na cidade. E chegava de Aracaju, cansado, porém vibrante, mais um para se juntar aos locais. Esse trazia um baixo elétrico de 5 cordas, uma guitarra semiacústica, partes de uma bateria e um som atraente. O Sertão também sabe dar boas-vindas ao que não for reisado, maracatu e forró.

A grande satisfação inicial de todos foi descobrir que a cidade tem um Centro Cultural de respeito, o Centro Cultural do Banco do Nordeste, sede do Festival. Sousa e Fortaleza são as outras cidades com a mesma estrutura. Que aquela terra era de milagres, já sabíamos de antemão. Mas aquilo era obra humana. O raciocínio da turma foi unânime: “putz! E por que Aracaju não tem um negócio assim, oxente?” Vários andares muito bem cuidados com estrutura para exposições, biblioteca, cursos e conferências, e uma bela sala de apresentações. Tudo novo. Uma sala com cerca de 150 lugares confortáveis, palco correto, sala de controle de som, camarins, staff completo. “Também queremos isso”, repetíamos.

A proposta do Festival BNB de Música Instrumental é formar público. Em outras palavras, criar nas pessoas sensibilidade e curiosidade suficientes para fazê-las sair de casa e ouvir algo que não esteja ao alcance do rádio, da TV e do arrocha-bar da esquina. Para isso, escalaram, via edital, 20 grupos de todo país (mais um trio da Argentina, de lambuja), que circularam pelas três sedes em 40 apresentações gratuitas. O pequeno Sergipe deu sua contribuição, e bem dada.

Tudo impecável. Show começando com pontualidade máxima, público silencioso e atento. Assim é possível se apreciar Música da mesma forma que se aprecia, por exemplo, um filme ou um livro. Observei em detalhe a reação da plateia. Muita atenção, algumas cabeças marcando o groove da bateria e, aos poucos, assobios e aplausos mais relaxados também se impondo. O repertório foi apresentado à moda Ferraro, com aquela comunicação easy going que falta a muitos grupos que, talvez por timidez, narcisismo ou falta de traquejo mesmo, se limitam a monossílabos. Claro que a Música fala por ela mesma; mas um pouco de conversa não mata ninguém, correto? Em suma, se o público não saiu totalmente formado, pelo menos bem informado, saiu!

Bueno, mas a noite não era apenas sergipana. Natal preparara uma surpresa a juazeirenses e sergipanos. Saturnino e o Disco Avuadô fechariam a apresentação. Com o dever cumprido, Ferraro & Equipe só curtiam o fusion regional-com-pé-em-Minas do sexteto potiguar. Muito bom! O encontro acabou em Pizza na Hilda, onde não se vende bebida alcoólica. Procurei investigar, mas não souberam me explicar o motivo da Lei Seca no estabelecimento. Muitas figurinhas e Cds foram trocados entre todos e mais um retrato registrou o momento.

Pedindo bênção ao Padinho, a caravana seguiu rota na manhã seguinte. Com o guia Quatro Rodas em mãos, o rumo era Sousa, berço do Vale dos Dinossauros. Registra-se ser o local de maior acúmulo de pegadas de dinossauros do planeta. Mas até chegarmos aos dinos, muita estrada, lindas paisagens com tabuleiros, serras e penhascos. E a BR 116, generosa em buracos.

Sousa City não passa de 65 mil habitantes. E daí? Novamente, uma beleza de Centro Cultural BNB, cheirando a novo, uma tetéia. Estrutura de show idêntica à de Juazeiro. Curiosos, Robson, Rafael Jr. e eu fomos checar in loco a biblioteca, no 3º andar. Aprovada. Literaturas as mais variadas e até songbooks de Caetano, João Bosco e Chico Buarque. Ao alcance de qualquer cidadão.

Na Paraíba, Ferraro Trio encontrou público maior e mais solto. Isso se refletiu de imediato no palco e tornou o show de fechamento muito gratificante a todos. O setlist de 14 temas foi mantido, dividido igualitariamente entre composições do trio e obras de Hendrix, Simonal, Tower of Power e outros. Ao final do show, empacotando equipamentos, Saulinho foi abordado por um homem que propôs ao guitarrista colocar letra em sua composição Comboio para Lisboa. Paraíba é terra de poetas.

Coda: Churrasquinho, fritas e cerveja, por favor, porque aqui ninguém é de ferro! A noite em Sousa foi pródiga em bons papos, preparando um longo, mas tranquilo, retorno a Sergipe, soldando relações que têm a Música como eixo, mas vão bem além dela.

Obrigado pela oportunidade.

Ernesto S.

Ficha Técnica:
Motorista: Andrey
Produtor: Mário Eugênio
Técnico de Som: Eduardo
Guitarra: Saulinho Ferreira
Contrabaixo: Robson Souza
Bateria: Rafael Jr.
Palpiteiro: Ernesto Seidl

3 Respostas to “NA ESTRADA COM FERRARO TRIO”

  1. Rafael Jr. junho 4, 2011 às 10:53 pm #

    Caro Ernesto,
    Muito obrigado pela companhia na viagem, outras virão!
    Vamos espalhar esse texto aí, ótima escrita como sempre!!!

  2. Erinaldo Teles julho 16, 2011 às 11:41 am #

    Prezado Ernesto,

    Ouvi a notícia dessa viagem no programa clube do jazz, que por sinal, descobri enquanto esperava meu filho no yazigi. Que programa é esse meu irmão????Ele esta me fazendo buscar os clássicos do jazz ( pode me fazer algumas sugestões??), coisa impensável a algum tempo.Acompanho, (sempre que posso) o Ferraro trio, que ouvi pela primeira vez na fm aperipê e ao vivo no cap. cook.Tenho o cd e ouço muito. Para você ter uma idéia, fui ao Murato, com única intenção de ouví-los, ou melhor, o quarteto, não é mesmo? Levei o meu filho para ver o baixista tocar, já que ele esta estudando baixo e guitarra. O cara toca muito. Parabéns Robson.

    Gravei no meu computador, dois dos seus programas, com a intenção de editar. Ainda não tive tempo. Levei a informação da existencia do programa, para a Bahia e galera adorou.

    Abraços,
    Erinaldo

  3. Rafael Jr julho 22, 2011 às 3:48 am #

    Maravilha esse feedback, Ernesto!
    Caro Erinaldo, continue acompanhando o Clube do Jazz, é fonte certeira para o que você procura!
    Espero conhecê-lo pessoalmente, em algum show do Ferraro Trio ou do quarteto… Que tal no dia 30/07 no CIC?
    Abraço,
    Rafael Jr.

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