FESTIVAL JAZZ & BLUES DE GUARAMIRANGA: CARNAVAL DE LUXO

5 mar

Guaramiranga está a 1.200 Km de distância de Aracaju, a 600 metros acima do nível do mar e a anos-luz à frente de muitos lugares em termos de vida cultural. Pelo menos, durante o Carnaval. Há treze anos a minúscula cidade cearense vira cena aberta do Jazz. E sua estrutura veio junto com o festival, ou melhor, por causa dele. Exemplo de que atividades culturais irrigam não apenas a mente.

Clube do Jazz esteve lá por uma semana. Junto com o jornalista fotográfico André Teixeira – que registrou tudo em detalhe e preparou rico álbum com link ao final desta matéria -, procuramos cobrir parte das dezenas de atividades que antecedem e são concomitantes aos quatro dias de Festival propriamente dito. Como detalhado na matéria anterior deste blog, oficinas de música comandadas por instrumentistas de alto calibre – como Marco Lobo, Widor Santiago, Cainã Cavalcante e Henri Griendl – abrigaram alunos e professores da rede pública do Ceará. Um trabalho fantástico e de fôlego, envolvendo a fundo jovens de todo estado. Ao final, apresentações dessas turmas e mestres por todos os lados, numa invasão musical empolgante. Exemplo de que um festival vai além de bons shows e de vedetes da música.

Muito além, aliás. Em Guaramiranga, os dias de festival começam pela manhã e acabam pela manhã, do dia seguinte. Palestras sobre história do Jazz e produção musical, filmes, entrevistas com instrumentistas, shows e mini-shows grátis, ensaios abertos e Jam Sessions preenchiam a agenda de quem quisesse. Mas às 21 horas a coisa esquentava mais na cidade Jazz & Blues, onde subiam ao palco duas atrações por noite. E assim foi esse Carnaval peculiar, sem confetes nem marchinhas, com neblina, 15 graus e chocolate quente. Vejamos nossas impressões.

A noite de abertura coube a um gaitista brasileiro e a um violinista cubano. Gabriel Grossi se apresentou com o tecladista Guilherme Ribeiro e o baterista Sérgio Machado. Estão entre os que encarnam o que há de mais pulsante na música instrumental brasileira e, já de cara, diria que foi um dos melhores shows de todo festival. E olha que competiam com Ravi Coltrane. Quem ainda não ouviu Gabriel Grossi deveria agora mesmo internetear sobre o jovem nascido em Brasília que tem em sua gaita sons de todo o país. Na continuação, uma descoberta de Cuba: Omar Puente. Desconhecia totalmente sua música. Violinos são incomuns nos Jazz e na música caribenha. E daí? O homem mostrou logo por que Cuba é uma Meca musical (embora ele mesmo tenha trocado de ilha e viva há anos na Inglaterra). Tocou o que tinha direito e um pouco mais, fazendo misérias com um violinão sintetizado e acompanhado por um jovem time afiadíssimo, com direito a muita percussão à moda Caribe, isto é, congas, timbales e agogôs pra todos os cantos. Conversou, fez piada, jogou pra torcida, rebolou, enfim, incendiou tudo. Até convidou o percussionista Marco Lobo ao palco para segurar a ginga num samba de autoria cubana, especialmente composto para o Brasil. Um espetáculo 100% pra cima. Imagina se o público não pediria a lendária Guantanamera? Hasta la Victoria, Omar!

O sábado de Carnaval foi do Blues. Para começar, Puro Malte, grupo de Fortaleza. Fizeram bonito e tiveram simpática recepção. Não é simples segurar a peteca quando se figura ao lado de grandes nomes. Com a plateia aquecida, entraram então em cena o saxofonista e cantor norteamericano Atiba Taylor e o guitarrista e também cantor cearense Artur Menezes. A octanagem aumentou e me impressionei em especial com a técnica e explosão do jovem Artur Menezes, que usa uma semiacústica, menos comum entre bluseiros. Para quem é do Blues, diria que esse vale a pena descobrir.

A terceira noite do Jazz & Blues anunciava nomes de peso. Do lado brasileiro, nosso violoncelista mais notável e estrela do mundo, Jacques Morelenbaum. Do lado internacional, um adolescente e anônimo pianista de Israel, Gadi Lehavi, ao lado de Ravi Coltrane. Isso eu queria ver de perto. À tarde, no dito ensaio aberto que assistimos, eles passaram alguns trechos de Fooprints (Wayne Shorter). Mas de um jeito peculiar. Queria ver aquilo pra valer à noite. E vi. Morelenbaum veio com o Cello Samba Trio, formado pelo ultracompetente violonista Lula Galvão, um dos sidemen de agenda mais cheia do Brasil, e do batera Rafael Barata. O som é impecável. Uma sequência de standards da Bossa Nova, com improvisações enxutas, sem muita invenção. Superbom. Mas aqui entre nós, lá pelas tantas fica meio burocrático. Sou daqueles que acham que festival é festival. Tem que ter o algo a mais que, às vezes, não se tem numa apresentação de sala normal. Poderiam ter suado um pouco mais, ou ao menos despenteado um fio de cabelo. Sei que falar disso de um show de Jacques Morelenbaum soa como heresia. Mas volto a dizer: o som é lindo. Mas ele poderia pelo menos ter dito umas palavras a mais, sei lá. Depois do break, as surpresas. O pianista Gadi Lehavi ainda não tem 16 anos, é pequeno, corcundinha, bonito não é, e usa um corte de cabelo duvidoso. Mas se já não é gênio, é questão de tempo. Mostrou quase só composições suas, impressionantes em termos de beleza melódica e de complexidade harmônica e rítmica. Além de tudo, convidava Ravi Coltrane, filho de uma lenda. E tem a cara do pai. Nunca estarei tão perto de John Coltrane. Além da herança genética, Ravi mostra que é peixe bom e lembra em muito o estilo do pai em sua fase free jazz. Alguns da plateia, menos acostumados a sons esdrúxulos, foram deixando a sala ao longo dos solos. Estão absolvidos. Só essa noite teria valido os 1.200 Km e as dores musculares em região impublicável. Fico imaginando o quanto ainda ouviremos sobre Gadi Lehavi, mais uma força do Jazz que vem de Israel, a exemplo de Avishai Cohen. Obrigado, Israel, e volte sempre. Ah, tocaram não só um arranjo fabuloso da mencionada Footprints, mas também outro, inusitado, de Giant Steps, um hino de John Coltrane.

Terça de Carnaval. Aqueles que acham que quem ri por último, ri melhor, se deram bem em Guaramiranga. Para a última noite estava escalado um violonista gaiato uma barbaridade: Yamandu Costa. Mas antes, a cantora paulista Tatiana Parra e o Grupo Solar. Tatiana e grupo me causaram muito boa impressão. Melodias à moda mineira ou de Brasil profundo, ritmos sulamericanos, tudo com tratamento instrumental cuidadoso e bem interpretado. Uma MPB de alto gabarito, numa voz delicada, sem alardes nem estrelismos, tudo fino. Um pouco menos de acanhamento no palco teria combinado melhor com o momento, que merecia mais dinamismo. Mas isso não faltou no show que fecharia o Festival. Se não fosse violonista, talvez Yamandu Costa pudesse investir na stand-up comedy de bombachas. Mas que perda para a música! Com apenas 32 anos, Yamandu já atingiu patamar que poucos atingem na carreira de instrumentista e é reconhecido nos melhores círculos do mundo. E isso que até a metade de sua vida só conhecia música folclórica do Rio Grande do Sul. Yamandu se apresentou em trio, com o contrabaixista acústico Guto Wirtti e o violinista Nicolas Krassik, tocando principalmente temas do excelente álbum Lida. Entre as músicas, algumas lorotas ao estilo Yamandu. A exuberância técnica, o virtuosismo, a explosão e a força da música contrastavam com uma simplicidade brejeira ao se dirigir ao público, que ouvia fascinado. Teria vontade de continuar escrevendo sobre Yamandu, sobre o quanto encarna a energia de um Baden Powell, e, em especial, sobre a alegria de ver um instrumentista enchendo salas com pessoas ansiosas para ver um músico que não canta, não mostra as coxas nem rebola, muito menos poetiza com “ai se eu te pego”. Por sinal, Mr. Teló não deu as caras.

Obrigado, Guaramiranga!

Confiram álbum de fotografias por André Teixeira no link: https://picasaweb.google.com/111076241047675812946/FestivalDeJazzEBluesDeGuaramirangaCECarnavalDe2012

Ernesto Seidl é produtor e apresentador do programa Clube do Jazz

Uma resposta to “FESTIVAL JAZZ & BLUES DE GUARAMIRANGA: CARNAVAL DE LUXO”

  1. Nanci Mitsumori março 23, 2012 às 12:52 am #

    Parabéns pela matéria. Traz, enfim, uma excelente opção para carnavais futuros!

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