O QUE É QUE O RECÔNCAVO TEM?

28 ago

Para quem já perdia as esperanças com a música na Bahia, uma notícia animadora: há sinais claros de vida inteligente na região. A primeira edição do Recôncavo Jazz Festival, de 23 a 25 de agosto, em Cachoeira, matou a cobra e mostrou o Jazz. Cachoeira? Sim, a meras duas horas de Salvador, em direção ao centro do estado e às margens do rio Paraguaçu. Tudo perto, tudo fácil, e a música oferecida em praça pública, sem frescura.

Um detalhe: o Festival foi 100% gratuito, bancado pelo governo estadual. Alô, Sergipe! Já que se despeja tanto dinheiro público em axés e reboladas, nada mais justo.

Só a primeira noite já teria justificado tudo. A celebrada Orkestra Rumpilezz, 200% Bahia, se apresentou com o saxofonista norteamericano Joshua Redman, vedete do evento. É preciso agradecer ao maestro Letieres Leite, líder da Rumpilezz, pelos arranjos que fez para três temas do saxofonista (Mantra #5, Jazz Crimes e Hide and Seek), expoente de sua geração (nasceu em 1969). Sinceramente, depois dessa preferiria nunca mais assistir a Joshua sem a Rumpilezz nas costas. A criatividade rítmica, de timbres e arranjos calcados no candomblé promovida pela orquestra acrescentou toneladas de beleza e complexidade ao Jazz de tradição mais puro-sangue do americano. Esse casamento ou reencontro entre duas vertentes da diáspora africana foi uma maravilha. E confesso que uma das coisas mais intensas e originais que já vi. Típico show que poderia ter umas 5 horas de duração.

Mas ainda tínhamos duas noites – uma maniçoba e um mocofato! – pela frente. Na sexta e sábado, novas doses de Jazz made in Bahia com o Saravá Jazz Sexteto. Prova adicional de vigor da música produzida naquele estado, reforçada pelas apresentações dos trios Retro_visor e Mondicá na noite seguinte. À parte o Retro_visor, com uma linguagem mais informada pelo rock e experimentalismos, os demais mostraram fusões bem elaboradas com base no rico balaio de ritmos e melodias de raiz brasileira, como os ijexás, o congado e as muitas variações de samba. Destaco que o baterista do Mondicá Trio, Márcio Dhiniz, já viveu em Aracaju e, poucos anos atrás, animou uma boa noitada de Samba Jazz promovida pelo Clube do Jazz no Capitão Cook.

Mas além da Bahia, presença dominante, Minas Gerais mandou representantes de cacife. Novamente prevaleceu a matriz africana, com o veterano baterista (e ogã!) Neném, versadíssimo no candomblé. Na sexta, Neném atacou de quarteto, com o flautista Mauro Rodrigues, o tecladista Sérgio Aluotto e o contrabaixista Kiko Mitre. No dia seguinte, veio em sexteto com os percussionistas Ricardo Cheib e Guto Padovani, formando o Suíte para os Orixás. O nome diz tudo.

Agora que me dei conta de que estávamos num festival de música no Recôncavo e de que tudo estava muito amarrado com coerência àquelas raízes culturais.

Ernesto Seidl é produtor e apresentador do Clube do Jazz.

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