Transfusão de Sangue Via Ondas Sonoras: Pat Metheny Unity Band

18 jun

Era um dia comum, daqueles em que várias coisas boas passam a um palmo do nosso nariz e deixamos que elas simplesmente passem. Um amigo gentilmente emprestou-me um DVD e, sem expor mais detalhes, afirmou que eu precisaria assisti-lo o quanto antes. Ansioso para saber do que se tratava, mal entrei em casa e logo fui tratar de descobrir o porquê de tamanha recomendação. Em suma, tratava-se de um show do disco Speaking of Now (2002), do guitarrista e compositor Pat Metheny. O trabalho contou com a participação dos inacreditáveis Steve Rodby (contrabaixo acústico e elétrico), Cuong Vu (trompete, violão, percussão e vocais), Richard Bona (violão, percussão, contrabaixo elétrico e vocais), António Sanchez (bateria), além de Lyle Mays (piano, teclados, violão e guitarra), parceiro de Metheny há mais de 30 anos.

Lembro muito bem de minha reação ao me deparar com tanta genialidade. Naquele show do Pat Metheny Group, vi um mix de complexidade harmônica, melodias inteligentes e de cautelosa variação de dinâmicas. Apesar de já conviver com música, foi como partir da estaca zero! Percebi então que eu precisaria de uma guitarra acústica para ser ainda mais feliz.

No último dia 12 de junho, a capital baiana sediou o show do guitarrista de Jazz mais influente dos últimos trinta anos. Lá estavam o Sr. Metheny, que no auge de seus 58 anos tocou guitarra com a mesma energia de um garoto. O Teatro Castro Alves parecia pequeno para comportar tantos apreciadores, inclusive, vindos de outras cidades. Colecionador de composições que vão do Jazz a temas para balé, Metheny sempre esteve aberto a múltiplas influências. Notamos nitidamente o uso da sensibilidade como fio condutor de seus trabalhos, independente da frente na qual atue. A mais recente delas é o Pat Metheny Unity Band, em que conta com o contrabaixo acústico de Ben Williams, com o saxofone de Chris Potter e com a bateria de António Sanchez. Para a felicidade dos soteropolitanos, a Bahia estava na lista dos Estados brasileiras que receberiam Metheny e sua banda repleta de unidade musical.   

 O público presenciou quatro shows paralelos. Metheny e seus parceiros soavam como um contraponto a quatro vozes, no qual cada voz tem sua independência, mas são coerentes entre si e se encontram em algum momento. Foi assim! Em alguns momentos ouvíamos quatro músicas distintas tocadas simultaneamente. Entretanto, lá estavam todos juntos atacando o tempo forte como se um caos polirrítmico não tivesse acontecido compassos antes. Tudo executado com muita precisão, tranquilidade e muita, muita energia. Energia que contagiou todos os que aplaudiam ao fim de cada improviso e esperavam ansiosos pelos próximos diálogos musicais.

 Ao executar James, do disco Offramp (1982), após a exposição do tema pelo grupo, Pat improvisou contanto apenas com o acompanhamento rítmico ultra-espacial de Sanchez, deixando a base harmônica por conta da memória dos ouvintes. Loucura? Julgo que não. Prefiro refletir sobre a possibilidade de narrar uma mesma história de várias formas, aumentando, rodeando, criando climas… O combustível do Jazz é a surpresa, sobretudo para quem toca. Tudo soa diferente a cada execução; na verdade, tem que soar! Se tivéssemos um bis deste tema, certamente a história seria outra.

Entre as performances com a banda completa, Pat executou temas em duos, valorizando cada membro da Unity. Foram interpretações belíssimas e em alguns momentos inacreditáveis. Foi o caso de Go get it, um tema dotado de melodia complexa, daquelas que a gente só acredita que de fato é algo escrito quando ouvimos a repetição após os improvisos. Apoiado pela condução firme das colcheias pontuadas de Ben Williams, Metheny tocou Insensatez, de Tom Jobim. Brincou com o tempo, com a intensidade e com nossa imaginação.

Pat tocou guitarra acústica, violão de nylon, guitarra synth – uma das principais marcas de seu trabalho – e nos encantou com o som mágico da guitarra Pikasso, um instrumento exótico composto por 42 cordas com o qual o músico abriu o show. Não contente, comandou robôs musicais que emitiam sons próprios de acordo com a vibração das cordas de sua guitarra. Por trás de toda a parafernália estava sua identidade, resultante de uma linguagem musical contagiante, madura e inconfundível. Genial!  

De volta para casa, a sensação de um novo sangue circulando em minhas veias. Um novo modo de compreender a música, com novas e sadias ambições, com o imenso desejo de continuar produzindo e me comunicando com as pessoas através dela. Após uma exibição dessas, quantos músicos foram correndo ao encontro de seus instrumentos? Me resta a curiosidade em saber quem teria sido o segundo a fazê-lo!

 Saulo Ferreira é compositor e guitarrista.

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